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Fonte: www.aduaneiras.com.br

Breves comentários sobre a crise financeira internacional



Autor: Armando Alvares Garcia Júnior
Data: 13/10/2008

No dia 1º de julho de 1944, na cidade de Bretton Woods, Estado de New Hampshire (EUA), foi iniciada uma conferência de 22 dias que acabou na criação do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial, instituições que, durante décadas, exerceram papel proeminente no sistema financeiro internacional, pregando a política econômica neoliberal difundida ao mundo pelos EUA. Mercados livres e, por isso mesmo, eficientes, eliminação de restrições àacumulação de riqueza, privatizações, desregulamentação. Nem mesmo um sistema cooperativo multilateral de regulação financeira entre entidades multilaterais e bancos centrais existe. As crises financeiras da América Latina e da Ásia foram solucionadas com a imposição dessas prescrições pelas duas entidades. Foram realizados ajustamentos estruturais em dezenas de países e com isso milhões de pessoas ficaram desempregadas ou subempregadas. Muitas emigraram. A crise atual não é sistêmica do capitalismo, mas decorrência do laisser-faire a que o neoliberalismo pugnado nos últimos 30 anos por EUA ocasionou.A não-intervenção do Estado e a desregulamentação do sistema econômico geraram uma estrutura financeira internacional baseada na especulação e na ambição. Há vários anos, os bancos norte-americanos concedem amplos créditos aos seus clientes deliberadamente desconsiderando sua capacidade de arcar com os empréstimos. A lógica é simples. Os custosos gastos com a análise de riscos de crédito são evitados e o patrimônio imobiliário do banco expande-se. Os bancos ficam mais ricos não porque os empréstimos concedidos são pagos, mas principalmente porque os empréstimos não pagos se convertem na entrega do imóvel dado como garantia.A crise financeira atual reduziu esse quadro de abundância de liquidez no sistema financeiro e expansão do crédito, afetando diretamente a produção e o consumo e restringindo o crédito externo aos demais países. Uma crise prolongada tende a afetar os demais Estados, já que parte de seu crescimento econômico nos últimos anos ocorreu pela demanda externa, inclusive a norte-americana.Há 200 anos a história econômica gravita, com maiores ou menores matizes, sobre quando e quanto o Estado pode ou deve intervir na economia. Nos Estados Unidos da América, o governo federal já assumiu o controle direto de parte relevante do sistema financeiro em outras crises severas (1792, 1907, 1929 e 1985).O capitalismo dos últimos 30 anos tenderá a ceder seu passo novamente à intervenção estatal em diversos setores, ainda que os jogos de interesses continuarão a existir.Como exemplo, cito a seguradora AIG que, nos anos 90, quando se negociava um acordo de serviços financeiros no âmbito da Organização Mundial do Comércio, pressionou a delegação norte-americana para obter o mais amplo acesso ao mercado do Sudeste Asiático. Malásia resistiu e o acordo por pouco não entrou em colapso.Quanto ao Brasil, nosso país está melhor preparado agora que em todas as crises anteriores por muitos motivos: diminuição da dependência do petróleo de 90% nosanos 70 para apenas 5% atualmente; mudança na matriz energética, com a incorporação do etanol e de outras energias renováveis; inflação aparentemente sob controle; sistema financeiro nacional seguro; diversificação dos destinos de exportações apenas 15% se destinam aos EUA, enquanto 25% vão para a Europa, 20% para a América Latina e 15% para a Ásia; melhora expressiva das contas externas, amplas reservas, pequena dívida externa pública; redução da dívida interna de 57% para 41% do PIB nos últimos sete anos; déficit fiscal pequeno e dívida pública decrescente.Os maiores riscos talvez sejam o déficit em conta corrente que se tem ampliado nesses últimos meses (o que, em um ambiente de contração de crédito em termos globais, é negativo) e a vinculação excessiva aos preços internacionais das commodities.A imoralidade lógica do sistema está fazendo com que aumente extraordinariamente a remessa de lucros e dividendos gerados nas filiais brasileiras para cobrir prejuízos das matrizes sediadas no exterior (especialmente bancos e grandes montadoras). O Banco Central estima em US$ 34 bilhões a saída desse capital em 2008.Nesse momento deve prevalecer a volatilidade dos mercados, o encurtamento e encarecimento do crédito e suas conseqüências sobre bancos e empresas, afetando por mais tempo a economia real. Isso poderá esfriar a economia brasileira (o que, em médio prazo, pode contribuir com sua sustentabilidade).O crescimento dos países emergentes, embora em ritmo menor do que nos anos recentes, deve contribuir para amenizar os impactos negativos advindos das economias centrais. O espetacular crescimento do mercado consumidor no Brasil (ampliação da classe média em mais de 50% do total da população) converte nosso país em um dos destinos principais dos investimentos de diversas empresas nos próximos anos.A demanda interna crescente está desempenhando um papel importantíssimo e algumas entidades estão ampliando os créditos para que esse aquecimento interno prossiga, apesar da crise mundial. No meio disso tudo, verificamos como ainda está distante o cumprimento das metas sociais das Nações Unidas (Objetivos de Desenvolvimento do Milênio) de reduzir a pobreza extrema (menos de US$ 1 por dia em termos de paridade de poder de compra) pela metade até o ano 2015.O mundo dispõe de tecnologia, conhecimento e riqueza. Necessita vontade política, solidariedade humana e ética. Só assim se podem diminuir disparidades. A confiança atávica no capitalismo conduz à busca de culpados, mas não em sua reformulação estrutural e a atual estrutura permite que benefícios financeiros sejam obtidos por poucos em detrimento de muitos e as mazelas das crises sejam repartidas entre todos, muito especialmente entre os que nada contribuíram para produzi-las.


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